Imagine um mundo onde estar com as notificações desligada, a internet desconectada e o celular esquecido na mochila se tornasse o novo normal.
Um mundo onde as pessoas eram obrigadas a se cumprimentarem na rua por não estarem mais distraídas olhando a vida dos outros escorrendo pela palma das mãos.
Um mundo onde sentar na praça ao final da tarde e puxar assunto com um completo desconhecido vira o novo WhatsApp. Onde o bloco de notas volta a ser o caderno. O Pinterest vira um passeio na natureza. E o máximo que você sabe da vida dos outros é aquilo que observa na sua vizinhança.
As vezes me imagino vivendo essa realidade e a pergunta que eu faço é: “quão mais leve viveríamos se o modo avião se tornasse um estilo de vida?”
50/20/26
No último final de semana levei minha avó para o casamento de um primo dela. O casamento aconteceu em uma cidade próxima da onde moro, cerca de 40 min de carro. Como ela sabe que seria perigoso dirigir sozinha até lá, me convidou para ser seu companheiro. Eu topei.
Ao longo da estrada conversamos sobre variados assuntos, desde como estava a vida dos meus cachorros depois da mudança de cidade até como era a infância dela na década de 50. E é sobre isso que quero falar com vocês.
Desdobrando um pouco da rotina dela na infância:
Para lavar roupa, ela precisava esfregar peça por peça no tanque com sabão, torcer até não pingar mais nada e depois estender no varal.
O sabão que ela usava? A família mesmo que fazia com banha de porco e óleos vegetais.
Depois de seca, chegava a hora de passar a roupa. Para passar precisava ir no vizinho pegar carvão, acender o carvão dentro daquele ferro pesado, esperar esquentar. Quando estivesse no ponto passava roupa por roupa com cuidado para não deixar o carvão se apagar.
As ruas eram de terra, o que significa que para cada passeio era preciso limpar os sapatos, afinal sujeira não era tolerada.
Seus dias se resumiam em poucas e demoradas atividades. Se existisse agenda digital teriam poucos e longos blocos.
O tempo passou da década de 50 pra cá.
Em 2020, vivíamos uma vida muito mais tranquila.
A tecnologia chegou e a roupa que se lavava peça por peça à mão, hoje só é preciso jogar na máquina e apertar um botão. (Em algumas, nem estender é necessário, pois cada peça já sai seca e quentinha.)
Em 2020 nossas agendas já podem ser mais flexíveis. Blocos longos de lavar roupa que antes perduravam 1-2 horas, hoje não tomam 15 minutos.
Com isso, temos uma agenda mais livre, livre para viver mais a vidaaaaaaaa!!!!!
Não. Achávamos que era isso que aconteceria.
Mas a verdade é que em 2020 estávamos realmente mais livres. Livres para preencher nossa agenda com mais atividades.
O tempo passou e chegamos em 2026.
Em 2026 a máquina de lavar não mudou muito.
Mas hoje criamos uma tecnologia tão inovadora que nem precisamos mais sentar para digitar nossas ideias e fazer nosso trabalho necessário. Hoje, com poucos comandos, essas tecnologia já faz tudo por nós. A nossa queridinha Inteligência Artificial.
Que de artificial mesmo só ficou a nossa vida depois da sua chegada.
Maaaaas, em compensação, em 2026 nossas agendas já podem ser ainda mais flexíveis, acredita? Blocos longos de criação que antes duravam 1-2 horas, hoje não tomam 15 minutos.
Com isso, temos uma agenda mais livre, livre para viver mais a vidaaaaaaaa!!!!!!
Não. Achávamos que era isso que aconteceria. Ou pelo menos foi isso que nos venderam.
Mas a verdade é que hoje estamos realmente mais livres. Livres para preencher nossa agenda com mais e mais atividades.
E, caso não tenha percebido, novamente as coisas estão se repetindo.
Para cada nova tecnologia criada com a ideia de facilitar nossa vida e devolver aquilo que perdemos, mais nossa agenda se preenche porque agora podemos ser cada vez mais “produtivos”.
Mas quem disse que fomos chamados para ser produtivos?
Ou melhor: o que ganhamos com essa falsa produtividade além de mais estresse, mais responsabilidade e menos vida.
Ao invés de aproveitarmos as facilidades para recuperarmos nossa atenção perdida.
Caminharmos nas ruas em nosso tempo livre.
Ou tomarmos um café sem açúcar com um pedaço de bolo no meio da tarde enquanto observamos o tempo passar…
Tornamos nossa vida ainda mais acelerada, ainda mais distraída, ainda focada em fazermos mais para nos sentirmos maiores.
A que ponto?
A que ponto vale não criar mais nada e ter tudo sendo gerado por uma inteligência que não é a sua?
A que ponto vale atrofiar seu cérebro criativo e cheio de ideias para seguir aquilo que foi criado por uma máquina?
A que ponto vale pedir conselhos de vida para um agente conselheiro formados por opiniões baseadas na wikipedia?
(Sim, até conselho de “termino ou não meu relacionamento” hoje estão sendo consultados em IA.)
A vida está passando. O tempo está correndo. As coisas estão mudando. E quando menos esperar percebemos que tudo aquilo que podíamos viver foi deixado de lado para que uma máquina vivesse em nosso lugar.
O Chamado
Essa carta é um chamado para um novo estilo de vida.
Um chamado para recuperarmos o controle naquilo que há muito perdemos: o tempo.
Um chamado para recuperarmos o prazer do tédio.
O prazer de criar algo pela nossa própria mão.
O prazer de gerar uma ideia sem se basear em uma máquina.
O prazer de viver uma vida criada e vivida por nós.
Vamos colocar nosso celular mais tempo no modo avião.
Vamos colocar nossa mente para criar sem precisar consultar um agente.
Vamos expressar aquilo que sentimos para pessoas e não máquinas.
Vamos conversar com estranhos.
Desenhar em papéis.
Tomar café sem açúcar.
Acordar e ver o amanhecer.
A vida é bela demais para deixar uma IA vivê-la em nosso lugar.
Espero que essa carta tenho aberto sua mente e te motivado a criar.
Afinal, para isso sim nós fomos chamados.
Se isso faz sentido, deixe um comentário aqui. Quero muito saber a opinião de vocês sobre esse assunto.
Ah, e claro, não deixe de seguir clicando no botão abaixo para não perder as próximas reflexões úteis e inúteis que tenho para trazer por aqui.
Nos vemos na próxima carta,
até breve.
Túlio Herani.
Texto 100% humano.

